– E quanto ao preço? Eu não tenho muito dinheiro – Keiran seguia o estranho enquanto retirava uma bolsa de moedas da túnica- Meu povo é pobre.

– Guarde esse dinheiro, falastrão – resmungou o estranho protegendo os olhos da luz do sol que se projetava sobre os dois fora da taverna- Eu não arrancar o pão de ninguém.

Kieran observou em silêncio e depois guardou o dinheiro. Os dois estavam em um povoado pequeno de fazendeiros, pastores se gado e ovelhas e plantadores. Era um lugar famoso por ser frequentado por foras da lei e pilantras. Labéu de Muhram era o apelido do lugar.

O povoado era cercado de tavernas, prostibulos e casas de apostas. Propício para o nome que lhe fora dado. Mesmo os fazendeiros e pastores da região eram pilantras.

Os passos do estranho deixavam pegadas grandes no chão de barro.

– Senhor? – chamou Keiran depois de meia hora de caminhada; o povoado e a civilização já tinham ficado para trás, agora andavam solitários por campinas verdes e convidativas.

– Você gosta de falar, hein.

Havia meia hora que não trocavam palavra alguma.

– Você não me disse seu nome.

O estranho soltou um riso de desdém.

– Nomes são mais terríveis do que espadas de aço e escudos de concreto – ele disse- A mesma glória que trazem pode se transformar em ruína.

– Você tem raiva de sacerdotes e agora esconde seu nome. Tem um passado manchado então.

– Manchado não, amaldiçoado.

O estranho vislumbrou em sua mente uma mulher morena de rosto redondo e cabelos curtos. Ela não sorria como devia sorrir, ela não acenava como deveria acenar. Ela estava enforcada.

É uma bruxa, acusava o ministro enquanto a mulher se contorcia a procura de ar.

– Meu nome é Rajehm–disse o estranho e não sorriu.

Passaram mais uma hora em silêncio, partindo das campinas para as colinas. O chão se tornou pedregoso e íngreme, o sol radiante e escandaloso, pronto para castigar-lhes.

No fim da tarde, enxergaram o mosteiro erguido na colina. Grandes muros de concreto saltavam para as alturas e um enorme portão de madeira guardava a entrada.

– No alto de uma colina com muros altos, parece mais uma fortaleza – comentou Rajehm.

– A entrada secreta é um túnel de fuga para o caso de ataque – relatou Keiran- A melhor maneira é entrar de noite para não sermos vistos. Podemos encontrar um ou dois guardas pelo caminho, mas você pode acabar com eles.

Eles avançaram colina acima, tão silenciosos quanto tigres. A muralha do mosteiro era protegida por quatro sentinelas armados com arcos. De fora, era possível ver a luz que irradiava e a ponta de uma construção alta, provavelmente a catedral.

Conforme se aproximavam, o sangue de Rajehmfervilhava nas veias. A êxtase e do cheiro antecipado de combate alertava todos os sentidos de seu corpo.

Pouco depois, chegaram a um altar feito de pedra. Estava quebrado e desalinhado. Não era utilizado há anos.

– A entrada fica logo ali- disse Keiran.

Mas Rajehmdesferiu um soco no altar e destruiu o restante do edifício de adoração.

Kieran ficou um pouco assustado, porém, percebeu uma fagulha nos olhos de Rajehm. Resolveu não comentar. Encontrou a pedra solta a esquerda do altar destruído e um alçapão deslizou diante de seus olhos.

Rajehm não se impressionou. Pisou por cima dos escombros do altar para entrar no corredor que se abrira.

O corredor descia colina adentro e era iluminado por velas. Os largos ombros de Rajehmse estreitaram, mas ele ainda tinha um pouco de mobilidade do antebraço.

– Se seguirmos o corredor até o final estaremos abaixo da catedral – explicou Keiran–Lá deve estar a pedra escarlate.

E conforme Keiran tinha dito, o corredor cheio de curvas terminou em um longo salão preenchido por bancos de madeira, quadros e um pequeno palanque.

Rajehm sentiu enjoos ao enxergar o lugar. Por todo sangue inocente derramado, como podiam se considerar santos? Ele não deixaria pedra sobre pedra desse império em Muhram. Até a mínima poeira seria exterminada.

 

continua…

POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

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Kieran observou com o canto do olho uma silhueta perfeita, exatamente como ele estava procurando. Depositou o cálice de hidromel no balcão e o dono da taverna– mais inchado que balão inflável- recolheu o cálice.

Kieran ajeitou sua capa preta, jogou os longos cabelos para trás e atravessou a taverna na direção do homem assentado na mesa, ao fundo. Um bêbado com bafo de porco cruzou seu caminho cambaleando e acabou caindo em uma mesa onde um bando de brutamontes estava jogando.

– Pelos deuses! – gritou alguém.

Kieran alcançou a mesa do estranho enquanto o bêbado começava a apanhar.

– Posso me sentar? – perguntou ele.

– Eu tenho cara de quem quer companhia? – refutou o estranho.

Havia uma caneca do tamanho de um balde em cima da mesa. O estranho tinha olhos azuis como o céu e músculos como as cascatas do Sul. Exibia uma má aparência, barba por fazer, cabelos desgrenhados, roupa sujas cheia de manchas de carvão.

– Meu nome é Keiran.

– Qual a parte de não ter companhia que você não entendeu?

– Senhor, me perdoe – Keiran sentou- se rapidamente e percebeu a sobrancelha do estranho se erguer entre os fios de cabelo – Eu sou Keiran Thorn e venho de um povoado pequeno a leste de Atana.

O estranho levou as pesadas mãos a mesa, pareciam duas marretas de aço.

– Eu preciso de ajuda, pois nosso povoado foi destruído e o nosso bem mais precioso foi levado pelos sacerdotes do monastério do lago – a voz de Keiran se erguia aos poucos – A pedra escarlate.

O estranho não ficou incomodado nem pelo roubo e nem pela destruição. Entretanto, a palavra sacerdote era quase uma abominação aos seus ouvidos.

– Meu povo não é guerreiro e não há ninguém por nós, então vim aqui para pedir ajuda.

– Por que eu?

– Desde que cheguei, você já bebeu cinco baldes de hidromel e não perdeu a consciência ou a postura. O dono da taverna me disse que você passou a madrugada aqui.

O estranho pigarreou e suspirou. Keiran sentiu o cheiro forte e quente do hidromel.

– Por favor – ele insistiu- Eu mesmo iria até lá sozinho, pois conheço uma entrada secreta para o mosteiro. Mas existem muitos guardas e o sumo sacerdote é a encarnação do mal.

– Bom, nisso eu tenho que concordar com você.

– Ele quer a pedra escarlate para usufruir do seu poder. Em nosso vilarejo, essa pedra traz prosperidade e…

– Chega – o estranho se levantou; uma pedra de concreto com dois metros de altura – Eu não ligo para o seu povo e nem para essa pedra patética, mas jurei debaixo do sol que ia acabar com qualquer hipócrita religioso que cruzasse meu caminho.

Kieran abriu um sorriso de satisfação.

– Tudo bem, tudo bem, isso já serve.

– Então me leve até eles.

– Espere… hã… O senhor não tem armas?

O estranho mostrou os punhos que mais pareciam dois bastões de madeira.

 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

– Cavalheiros, devo lhes parabenizar pelo bom trabalho – disse Roger.

Will, Ming, Matt e Sam estavam na sala dele. Era o fim do dia seguinte, eles tinham passado o dia preenchendo relatórios e terminando os processos. Sam achou até mais normal do que outros modos policiais de Castle Rock.

– Devemos isso ao bom plano do novato – disse Ming.

– Você se saiu muito bem, Sam. O dinheiro de Marson foi devolvido e amanhã será o julgamento de Elizabeth. Ela vai responder por furto e homicídio. Embora a sua ação final de ajudar vocês possa acabar pesando na pena dela – explicou Roger.

– A hora de Marson ainda vai chegar – resmungou Will.

– E faremos um churrasco para comemorar – completou Matt.

– Santas palavras – disse Sam.

– Só não arrumem confusão desnecessária, estou cansado de ouvir reclamações, Will.

– Eu nem sou de confusão, chefe – brincou Will.

Todo mundo riu.

 

FIM

POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

O Uber parou em frente a uma casa no bairro Orla. Daniel desceu do veículo, pegou sua pequena mala com alguns pertences. Atravessou o quintal aberto da casa sem perceber que estava sendo observado. Ele bateu na porta da casa. Quem atendeu a porta foi Elizabeth. Ele abriu um sorriso e os dois se beijaram.

– Eles acreditaram – ele sussurrou.

– Vamos falar disso lá dentro – disse Elizabeth.

Os dois entraram sem notar que um sujeito estava saindo do veículo com uma pistola magnum nas mãos.

***

– Se Will, Ming e Matt são os melhores policiais da cidade, então eu sou o Bozo – brincou Daniel se ajeitando no sofá – Eles sequer desconfiaram que eu era seu cúmplice. Seu plano foi genial.

– Você tem certeza de que eles não desconfiaram de nada? – Elizabeth perguntou da cozinha onde preparava um jantar para Daniel.

– E quem desconfiaria depois daquele ataque a minha pessoa? Todos acham que Marson está por trás disso.

– Você deixou claro que Marson estava por trás do ataque, não é?

– Claro que sim – respondeu Daniel – Na cabeça dos detetives, qualquer coisa que acontecer comigo é obra de Marson.

– Que bom.

Elizabeth apareceu com um revolver e atirou bem na cabeça de Daniel.

– Assim ninguém vai desconfiar de mim quando encontrarem seu corpo morto.

Neste momento, a porta de entrada foi arrombada e um sujeito disparou contra Elizabeth. O tiro atingiu a mão da moça que saltou para trás depois de xingar um palavrão.

– Daniel, sempre soube que você era um imbecil – ela resmungou.

O sujeito apareceu na porta da cozinha e apontou o revolver para Elizabeth. Tinha um rosto quadrado e músculos em todo o lugar do corpo.

– O dinheiro – ele disse.

– Parado aí! – gritou uma voz.

O musculoso olhou para porta. Matt e Sam estavam apontando um revolver para ele.

– Eu disse que nós íamos pegar dois coelhos com uma cajadada só – falou Matt.

Poucos minutos atrás, Sam estava entrando em agonia. Eles tinham seguido o Uber de Daniel conforme o plano dos detetives. Então perceberam que outro carro também estava seguindo Daniel e resolveram observar antes de agir. Depois de ouvir os disparos, Sam queria intervir, porém, Matt queria pegar também o sujeito que estava arrombando a porta.

– Se eu não me acostumar com o jeito de vocês, eu vou ficar louco logo, logo – murmurou Sam.

Entretanto, o sujeito reagiu e disparou. Sam deu um giro. Matt saltou para o outro lado com o som da bala zunindo perto de seu ouvido. O musculoso começou a disparar contra os dois.

– Cuidado, garoto! – disse Matt se protegendo atrás do sofá.

Sam disparou de volta contra o grandão. Errou. Um tiro assoprou perto de seu estomago deixando um rastro na camisa.

Então Elizabeth saltou sobre o musculoso e acertou-lhe uma faca bem no pescoço. O revolver do sujeito caiu no chão. Sangue espirrava para todo lado. Ele acertou um soco no rosto de Elizabeth e ela despencou no chão.

Sam apontou a arma para o sujeito, mas segundo o que aprendera como policial o impedia de matar alguém que estava praticamente morto. Sam olhou para Matt que também estava com o revolver apontado, mas não disparara. Ao menos nisso, eles pensavam igual.

As mãos do musculoso se curvaram e ele caiu, morto.

Elizabeth ergueu o corpo devagar e olhou para os detetives.

– Será que defender policiais conta como redução de pena? – ela questionou.

Sam quase riu. Bom, naquela noite, ele riu histericamente se lembrando da situação. Ainda faltava muito para se adaptar a Castle Rock.

Continua…

POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

Quando Will e Ming chegaram ao local do acidente, Matt e Sam já estavam lá. O carro estava baleado com vidros quebrados e pneus esquerdos furados. Roger parecia feijão cozinhando no fogo dentro daquele terno.

– Puta merda! – gritou Will.

– Cadê o Daniel? – perguntou Ming.

Matt estava mastigando seu famoso cigarro.

– Está no hospital – disse Roger – Levou dois tiros. Mas vai ficar bem.

– Isso está cheirando a Marson – falou Will – Algum tipo de aviso.

– Eu não apostaria todas as minhas fichas nisso, Will – disse Matt – O garoto e eu conseguimos rastrear o local das ligações do celular do Bran.

Roger encarou Matt com os olhos arregalados.

– E por que diabos você não me disse isso antes?!

– Achei que Will e Ming gostariam de nos acompanhar para uma visitinha.

Sam entregou o papel com endereço para Will. Roger se aproximou para ler também.

– O quê?! – exclamou Ming.

Matt estava com um sorrisinho de satisfação no rosto.

– Isso explica muita coisa – disse Roger.

– Mas não vai nos dar a localização do dinheiro e nem de Elizabeth – falou Will.

– Está é a parte em que você pensa em um plano – resmungou Matt.

– Caramba, você é o canalha mais cara de pau de Castle Rock – xingou Will.

– Esperem… – Sam levantou a mão – Acho que tenho um plano… se, bom, se vocês quiserem ouvir.

– Solta a língua, garoto – disse Matt.

***

Naquela noite, Will e Ming passaram no hospital para falar com Daniel. O rapaz estava com uma tipóia e uma pequena ferida no rosto.

– Will, o que está acontecendo? Eu não me sinto seguro em deitar e dormir porque tenho medo. Alguém está querendo me matar e só pode ser o maldito Marson – reclamou Daniel – Ele acha que sou culpado por Elizabeth ter fugido com o dinheiro dele. E se ele vier atrás de mim de novo? Quem vai garantir que vou sair vivo?

– A hora de Marson vai chegar – disse Will bem sério – E está perto.

– Mas eu não quero arriscar minha vida! – o tom de voz de Daniel era suplicante – Eu vou sair da cidade. Vou dar o fora antes que eu perca meu coro para esse facínora de merda.

– Isso pode ser uma boa ideia – concordou Ming – Também não queremos arriscar sua vida. E Marson não tem limites, disso todos aqui sabemos.

– Eu não vou pagar pelo crime de Elizabeth.

– Então você deve sair da cidade imediatamente – falou Will – Nós soltaremos um boletim dizendo que você está internado por enquanto. Isso vai lhe dar tempo para sair da cidade e pode nos ajudar a capturar o matador de aluguel de Marson.

Daniel assentiu.

– Eu farei como vocês sugeriram.

Duas horas depois, Will e Ming acompanharam Daniel até o Uber na frente do hospital.

– Não esqueça de nos manter informados – disse Will.

– Vocês também. Não quero ficar longe da minha casa para sempre – falou Daniel.

– Adíos – despediu-se Ming.

O Uber lançou-se estrada afora.

Um veículo parado próximo do hospital seguiu-o.

 

Continua…

POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

O Opala era veloz, isso Sam tinha que admitir. Além disso, seu painel, os bancos de couro e o câmbio original estavam impecáveis. Havia também um leve cheiro de hortelã e um colar com dois revólveres em miniatura pendurado no retrovisor interno.
– Preciso confessar – disse Sam – Vocês tem um jeito esquisito de executar o trabalho policial por aqui.
Matt soltou um risinho.
– Eu sei… somos perfeitos, não é?
– Não era bem isso que eu queria dizer – Sam fez uma careta.
Eles estavam entrando na rua da delegacia.
– Castle Rock é uma cidade boa para viver, mas como qualquer lugar, ela também tem seus poréns. Aqui, o trabalho policial tem seu próprio jeito e seu próprio ritmo. Eu gosto.
– Você mora aqui desde quando? – perguntou Sam.
– Desde que nasci – Matt soltou um suspiro que indicava nostalgia – Naquela época as coisas eram um pouco mais simples. Acho que ainda é simples, longe de muita gritaria das metrópoles.
Sam pensou no que dizer e se pegou sem saber.
O Opala parou na frente da delegacia.
– E você? – questionou Matt – Garoto da cidade grande? O que fez você parar aqui?
– Estava fisgando alguma coisa no Rio. Quatro anos de investigação pareciam estar produzindo resultado.
– Então por que veio parar aqui se estava tão perto de um fato grande?
– Coisas de metrópoles.
– Bingo, meu garoto.
Os dois entraram na delegacia e entregaram o celular para a análise das ligações. Neste momento, um galego bem alto trajando um terno de corte italiano.
-Você deve ser o novato – disse o galego estendendo a mão para Sam – Meu nome é Roger, sou o chefe da 12 DP.
– Ah, muito prazer.
– O prazer é meu. Seja Bem Vindo À 12 DP de Castle Rock.
Matt cumprimentou Roger logo em seguida.
– Espero que Matt, Will e Ming estejam ajudando você a se adaptar – disse Roger.
Sam assentiu, embora ainda estivesse confuso em relação às regras policiais que regiam a cidade.
– Eles são os melhores policias do Distrito, embora as vezes sejam rudes – continuou Roger – Creio que está em boas mãos. E, se precisar de alguma coisa, não hesite em me chamar.
O chefe da 12 DP se despediu. Sam olhou para Matt e depois pensou em como sua investigação no Rio tinha sido perigosa. Só assim para eles enviarem-no para um lugar como Castle Rock.
***
Will e Ming chegaram no escritório onde Marson trabalhava – ou fingia que trabalhava, como Will costumava dizer. Não era a primeira visita dos policiais ao local e a moça da recepção ficou atenta. Da última vez, Will tinha quebrado a porta quando ela disse que Marson não estava no escritório.
– Eu não quero nenhum desconto adicional no meu holerite este mês, ouviu Will?
Por causa da porta quebrada, os dois tinham recebido uma advertência e um desconto no valor da porta.
-Roger ferrou com a gente daquela vez – disse Will.
-Ele nos salvou. Desconto e advertência foi mínimo se levar em conta o que Marson queria que eles fizessem conosco. Na verdade, ele só não metralhou a gente ainda porque ia ficar muito explícito que ele era culpado. Além da nossa teimosia em morrer.
Will abriu um sorriso de sarcasmo.
-Bom dia, senhores policiais. Avisei ao senhor Marson sobre a sua chegada assim que os vi – disse a secretária.
-Olha, Ming, ela ficou ligeira – murmurou Will.
– Ele vai recebê-los – ela apontou para a porta, agora nova em folha.
Ming agradeceu e abriu a porta.
– Além disso, como irão descontar uma coisa que eu comprei – resmungou Will olhando a porta.
Marson estava sentado atrás de sua mesa quadrada. O escritório era limpo, com três quadros de paisagens, uma estante com livros e uma mesinha de vidro com vinho e champanhe.
– Bom dia, senhores Will e Ming. Sentem- se – ele apontou duas cadeiras – Em que posso ser útil?
Marson tinha cinquenta anos, mas era aquele cinquentão conservado. Seu rosto exibia uma barba branca e preta, seus ombros se erguiam redondos e carrancudos, suas mãos eram tão grandes quanto as de um homem daquele porte. Facilmente estrangulariam um homem menor.
– Soubemos que foi roubado – disse Will- Estamos na investigação.
– Ora, ora, como o destino é generoso. Os melhores policiais de Castle Rock trabalhando no meu caso.
– Espero que as investigações sejam mesmo generosas – reclamou Will.
Marson ajeitou a gravata verde que usava junto ao terno de seda preto.
-O gerente do banco nos disse que o senhor pagou em dinheiro. Posso saber porque, senhor Marson? – indagou Ming.
– Ora, porque era o jeito mais fácil para mim naquele momento – disse o empresário.
– Vimos que seu histórico de depósitos com esse banco é sempre em dinheiro. Não cheque, não transferências, somente dinheiro. E acho que não precisamos comentar sobre as quantias – comentou Ming.
– Achei que isso fosse sigilo do cliente.
– Está correto – continuou o policial – Mas sabe como Will e eu somos persistentes.
Will sorriu sarcasticamente, de novo.
– Mas onde quer chegar senhor Ming? – questionou Marson.
– Estou conferindo para ver se as informações estão certas. Elizabeth sabia das transações e isso facilitou sua fuga com o dinheiro.
– Isso também facilitaria caso alguém quisesse ferrar com o banco – acrescentou Will.
– Quer dizer que eu sou roubado e vocês vem aqui insinuar que sou cúmplice desse crime? Eu creio que sejam um tanto insolentes e contando com nosso histórico social, penso que estão correndo risco de perder seus distintivos.
– Estamos fazendo nosso trabalho e isso me soou como uma ameaça ou estou errado? – indagou Will.
– Eu quero que vocês saiam e encontrem meu dinheiro roubado!
– Vamos encontrá-lo e torça para que ele não aponte para seu rastro de sujeira.
Will se levantou.
– Vamos, Ming.
Marson assistiu os dois policiais saírem sem esboçar ressentimento. Ajeitou a gravata e voltou aos seus afazeres.
Fora do escritório, Will estava prestes a entrar no seu carro quando o celular tocou.
– Alô?
– Will, você precisa vir imediatamente a esquina do Shopping com o Carrefour.
– Roger? O que foi?
– Balearam o carro do Daniel.
Will soltou um palavrão e desligou.

Continua…

POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

Bran era um bandido de meia tigela que tivera um final de semana produtivo. Ele não tivera sucesso em nenhuma empreitada naquele mês, principalmente porque seu lema era roubar sem ir para a cadeia.
– Roubar só faz sentido se não chamar a atenção dos tiras – ele costumava dizer antes de iniciar qualquer operação; era quase uma reza.
Ele havia apanhado de uma mulher no outro mês quando tinha tentado roubar sua bolsa – a moça treinava muai thai – sua força de vontade de correr mesmo com dores por todo corpo era simplesmente não ser capturado pela polícia.
Então, finalmente, alguém tinha ligado. O serviço era levar um carro ao desmanche. Poderiam ficar com a grana do desmanche e mais dois mil depois que tivessem feito o trabalho. Bran aproveitou e passou no Walmart perto da Rodoviária antes de deixar o carro no desmanche e depois de ter a feito o serviço pensou em repousar por um tempo, afinal ele não queria ir para a cadeia. E, naquela tarde, ele estava degustando pipoca com Sazon enquanto assistia Netflix, sem imaginar que do lado de fora de sua casa, quatro detetives estavam prestes a estourar a porta.
Will sinalizou e Matt meteu o pé na porta. A porta de alumínio estava tão enferrujada que caiu para trás. Bran derrubou a pipoca e imediatamente sacou o revólver que estava debaixo do sofá.
– Parado! Polícia! – gritou Ming.
O facínora saltou para trás do sofá e disparou. O tiro passou zunindo pelo ouvido de Sam que recuou para fora.
– Vocês não vão me pegar, safados! – gritou Bran disparando as cegas.
– Você está bem? – perguntou Ming para Sam.
– Tem certeza de que não precisamos rever os coletes?
Will e Matt contornaram o cômodo com a intenção de render.
Entretanto, Bran jamais iria para cadeia e correu na direção da janela.
Will sacou o revolver, mas outro disparo acertou a perna de Bran antes. O bandido caiu no chão e seu revolver voou de suas mãos.
– O mais rápido do Oeste – regozijou Matt, que disparara pouco antes de Will.
Bran começou a se arrastar, porém, sentiu dois pares de mãos agarrando-o.
– Precisamos ter uma conversinha.
Matt algemou o bandido.
– Não deveríamos levá-lo a delegacia para o interrogatório? – indagou Sam para Ming.
– Tente dizer isso aqueles dois – Ming apontou para Will e Matt.
– Droga, eu vou para cadeia, mermão. Eu vou para a cadeia – murmurou Bran.
– Parece que temos um cadeiafobico aqui, Will – comentou Matt.
Will se aproximou do rosto do bandido.
– Olha aqui, vou ser claro com você. Nós temos o vídeo onde você e seu colega estão com um veículo, um Celta. Tudo o que queremos saber é quem mandou você?
– Ninguém! – resmungou Bran.
– Então você quer ser preso?
Bran enxergou o policial com olhos de desespero.
– Vamos, rapaz, não temos o dia inteiro – bradou Matt – Informação ou cadeia?
– Tá bem, tá bem. Foi um serviço contratado. Mas eu não sei quem é, o cara sempre me liga naquele celular quando precisa de um serviço – o bandido apontou para um celular em cima da geladeira – Ele pediu para comprarmos o carro numa loja de carros usados nos limites de Castle Rock e depois levarmos até o desmanche.
– Como era o nome da loja? – perguntou Will fitando o facínora.
– É a única na Orla – respondeu o bandido.
Mais tarde, Sam ficou sabendo que Orla era o nome do bairro que beirava os limites de Castle Rock.
Matt praguejou. Will pegou o celular, deu uma última olhada para Bran e saiu. Os outros seguiram.
Bran suspirou aliviado. O ferimento na perna era fútil comparado a sua vitória. Ele não ia para cadeia… ainda não.
***
– Então, acha que Elizabeth está envolvida com outra pessoa no roubo? – indagou Will para Matt.
O cowboy ajeitou o chapéu e coçou a testa.
– Vamos deixar o novato falar – disse Matt.
Sam ficou um pouco surpreso. Tudo o que ele achava era que haviam infrigido umas boas regras de conduta policial.
– Temos que rastrear a ligação. Se Elizabeth está envolvida com alguém, talvez esse seja o melhor modo de capturá-la.
– Eu penso a mesma coisa – concordou Ming.
Will assentiu com a cabeça.
– E a loja de veículos usados? – lembrou Matt – Acha que alguém está querendo nos despistar.
– Provavelmente – disse Will – Matt, vá com o novato até a delegacia e descubra quem está por trás da ligação. Ming e eu vamos fazer uma pequena visita.
– Você vai descer a porrada em quem dessa vez? – questionou Ming.
– Marson – falou Will.
– O que? – o china arregalou os olhos.
– O dinheiro roubado é dele. E se eu bem conheço aquele canalha, o dedo dele deve estar envolvido nessa merda.
Matt coçou a testa de novo, suspirou e por fim, concordou.
Will entrou no Siena.
– Cuidado, Will – alertou Matt.
O Siena foi embora enquanto Matt e Sam entravam no Opala.

CONTINUA…
POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)

– Será que vamos esperar até a volta de Jesus para eu ter essas imagens? – resmungou Will.
Os quatro detetives estavam na sala principal da delegacia, onde ficava a maioria dos policiais e várias mesas com computadores. Um rapaz de TI recolhia informações no computador enquanto eles esperavam.
– Eu pagaria para vê-lo nervoso todo dia – brincou Matt.
Will mostrou-lhe o dedo do meio. Ming abriu um sorrisinho.
– Vocês não tem alguém nas ruas? Algum tipo de informante? – sugeriu Sam.
– Pelas vestes de Maria! – exclamou Matt retirando o charuto da boca.
Em seguida, ele e Will disseram o mesmo nome juntos.
– Ted!
O rapaz de TI olhou de soslaio como se o ato de parar de trabalhar na frente dos dois pudesse custar sua vida.
– Muito bom, novato – Will estralou os dedos.
Eles se dirigiram para a saída.
– Vamos no meu Tubarão – disse Matt com tom orgulhoso.
– Eu não entro naquela lata velha nem que um furacão esteja nos alcançando – murmurou Will.
– Ei, não xinga o meu bebezão.
***
Ted era um barbeiro que também atuava como um olheiro não oficial da polícia. Sua barbearia era bem frequentada e ficava em um ponto estratégico do bairro, facilitando essa troca de informações. Era muito óbvio que os malandros da área não sabiam do serviço extra de Ted, ou alguém poderia acabar com o corpo cravado por balas de metralhadora.
Will chegou no Siena junto com Ming. Pouco a frente, o Opala de Matt estava estacionado.
– Gostou de comer poeira, Will?
Matt estava encostado ao lado da entrada da barbearia.
– Espero que Satanás envie algumas multas de trânsito para você – disse Will.
– Quem é esse tal de Ted? – perguntou Sam.
– Um informante não oficial – respondeu Ming.
– E como ele consegue as informações?
– Está aí uma coisa que não devemos perguntar – afirmou Ming.
Eles entraram na barbearia. Ted era um homem negro bem corpulento e sua careca se destacava por seu estado impecável. Na parede, havia aqueles quadros típicos de salões de beleza, com homens e mulheres bonitas com seus penteados perfeitos.
– Ted, algum dia você vai ganhar o prêmio de careca mais brilhante de Castle Rock – disse Will.
– Seria melhor conseguir convencer minha mulher a ser menos escandalosa – Ted cumprimentou os outros.
Sam foi apresentado e depois eles foram levados a uma sala no andar de cima da barbearia. Havia um leve cheiro de morango no ar e Sam ficou impressionado com a limpeza do local.
– Um celta… – Ted levou a mão ao queixo.
– Temos a placa – Matt retirou do bolso um papel com o número.
– Aguentem um minuto, parceiros.
Ted saiu da sala. Matt mascava seu charuto.
– Você sabia que isso é irritante, não é? – cutucou Will.
– O que? – indagou Matt.
– Essa porcaria de charuto sem fogo.
– Alguém precisa fazer o papel de malvado por aqui.
– Será que dá pra vocês pararem? – reclamou Ming.
Os dois se entreolharam e então houve silêncio.
– Se fosse no Rio, Ted estaria correndo um baita risco – comentou Sam.
– Aqui também. Ninguém sabe que ele trabalha como informante da polícia. Tentamos parecer clientes e tem sido eficiente – explicou Ming.
– A polícia não é bem vinda nessas bandas. Fazemos rondas com duas viaturas ou com as forças especiais para evitar ouvir a música de enterro – disse Will de maneira séria.
– Nisso eu tenho que concordar com o sherlock – argumentou Matt – Isso que estamos fazendo é bem perigoso e idiota. Ou seja… Bem a nossa cara.
Ted apareceu em seguida.
– Parece que viram esse Celta no Wallmart da rodoviária, no final de semana.
– Rodoviária? – questionou Ming, intrigado.
– Por que pegaria um ônibus? É muito mais lento do que um avião – comentou Matt.
– Uma maneira mais fácil de despistar – sugeriu Sam.
– Ainda está muito estranho – murmurou Will – Ted, se alguém vir o Celta, ligue para nós.
O barbeiro assentiu e os policiais saíram do local. Ming ligou para a delegacia e pediu para reduzirem a área de busca pelo veículo apenas para as redondezas da rodoviária.
– No que está pensando, Will? – perguntou Matt.
– Imaginei que ela tivesse fugido da cidade, mas se ela ainda está aqui ou deixou o carro na rodoviária, parece estar tentando nos confundir.
Neste momento, o celular de Ming tocou. Ele atendeu e segundos depois desligou apressado.
– Encontraram o carro, Will. Vamos!
– Onde está? – perguntou Matt.
– Foi desmontado por bandidos – respondeu Ming.
Os policiais se olharam, curiosos.
***
Daniel estava saindo de um reunião estafante com o diretor. Responsável por cem mil reais desaparecidos, ele esperava que Will resolvesse o caso.
O gerente entrou em seu Vectra e dirigiu para casa. Tudo o que mais desejava era um bom banho quente e uma xícara de chocolate.
Mas então dois carros surgiram comendo asfalto em velocidade. Metralhadoras apareceram dos vidros pretos e atiraram contra o Vectra.
Daniel deu um grito e perdeu o controle do veículo. O Vectra atingiu um poste em cheio enquanto os dois carros misteriosos sumiam pela rua.

Continua…
POR NAOR WILLIANS

– Ela fugiu, Will – disse Daniel.
Os três detetives estavam no escritório do gerente.
– Elizabeth? – questionou Ming – Mas ela parecia uma cidadã de respeito. Por que não acreditar que ela foi roubada e assassinada?
– O tempo, Ming – resmungou Will – Se ela tivesse sido roubada, voltaria a agência e se fosse assassinada, haveria um corpo.
– Agora tenho que dar conta do dinheiro do Marson – continuou Daniel – O Banco não se responsabiliza por nada e eu… caramba, onde eu vou conseguir cem mil reais?!
– Fique calmo – disse Ming.
Will se levantou da cadeira.
– Marson… já faz algum tempo que quero pegar esse canalha. Mas ele sempre tem um bode expiatório. Merda!
Sam ficou espantado com o modo que Will falava de um suspeito na frente de um civil.
– Ela pode estar em qualquer lugar agora – Daniel tomou um gole da água que estava na mesa.
– Não é bem assim. Uma moça solteira com cem mil. Réu primário. Uma pessoa desse tipo só pensa em dar o fora primeiro e depois pode tentar conseguir uma identidade falsa – explicou Will.
– Vamos ligar no aeroporto e pedir os últimos registros- sugeriu Ming.
– Ela tinha carro? – indagou Sam.
Will pareceu impressionado com a pergunta do novato.
– Seria muito burra se tivesse fugido assim – disse Ming.
– Vamos torcer para que seja – bradou Will.
Então Ming fez algumas ligações pedindo relatórios enquanto eles se dirigiam a casa onde Elizabeth era inquilina.
– Não a vejo desde… desde sexta, acho – explicou a dona Dirce, proprietária dos três imóveis; Elizabeth morava no dos fundos – Aconteceu algo a ela?
– Elizabeth está desaparecida, senhora – confessou Will.
Dirce ficou com as sobrancelhas grisalhas erguidas.
– Meu Deus… – a velha levou a mão a boca.
– Ela não sabe de nada – murmurou Sam.
– A senhora tem algum telefone de qualquer parente dela para que possamos nos comunicar? – perguntou Will.
– Apenas da irmã.
Dirce entrou para buscar o número.
– Acha que ela foi para a casa da irmã?
– Não, Ming. Precisava da dona Dirce ocupada para executar meu plano.
– Merda.
Sam olhou inquieto enquanto Will estourava a fechadura da porta.
– Ei, precisamos de um mandato pra isso, não é?
– Se alguém estivesse em casa… – Will olhou para Sam – Talvez.
Eles entraram na casa.
Neste momento, Ming recebeu uma ligação. Desligou um minuto depois; Will e Sam já haviam averiguado os dois cômodos.
– Ela não foi ao aeroporto – explicou Ming.
– Então vamos esperar pra ver se alguma câmera de trânsito fez seu trabalho nessa cidade – reclamou Will.
– Táxi, ela pode ter pegado um táxi – comentou Sam – Convenhamos que isso é mais prático.
– Mas o carro dela não está na garagem – lembrou Ming.
– Rastrear a placa vai ser a opção mais efetiva. Isso aqui é perda de tempo – resmungou Will.
Eles saíram da casa. Ming avistou um Opala vindo na direção deles assim que estava na calçada.
– Olhe quem vem lá, Will.
Will xingou um palavrão.
O Opala parou ao lado do carro de polícia que eles tinham usado para chegar até ali. Um homem parecido com Clint Eastwood saiu do carro. Trajava uma jaqueta marrom e um chapéu de cowboy.

– Está atrasado, Matt Canalha – disse Will.
– Tive que ajudar uma velhinha com as compras. Onde foram parar os bons modos?
Ming falou baixo perto de Sam:
– Ele sempre fala isso.
– Você deve ser o novato – o cowboy cumprimentou Samuel.
Ele se voltou para Will mastigando o charuto – que não estava aceso.
– Você está ficando lento, Will – ele reclamou – Um roubinho desses ainda não foi resolvido?
– Talvez eu jogue a maleta com cem mil no meio dessa sua cara de pau quando encontrar – falou Will.
Eles colocaram Matt a par do caso e só depois disso, Dirce chegou com o número da irmã de Elizabeth.
– Pelas barbas de Abraão, alguém paga para alguém dar uns pega nessa velha! Pela lentidão, deve fazer anos que ela não se diverte – comentou Matt; por sorte dona Dirce também era um pouco surda e não entendeu nada.

Continua…
POR NAOR WILLIANS

O celular despertou às seis horas da manhã e os olhos caramelos de Samuel dos Anjos se abriram enquanto ele levava a mão para calar o barulho. A cama de solteiro gemeu quando ele se levantou, Sam não se arriscava a ficar mais tempo na cama com a chance de dormir novamente. Ele olhou o celular antes de entrar no banho. Nenhuma maldita mensagem, pensou ele. Engoliu seco e foi para o banheiro.
Era o primeiro dia de Sam na 12° DP em Castle Rock. Ele havia sido transferido do Rio de Janeiro depois de quatro anos de serviço.
– Como passou a noite, moço? – perguntou Francisco, um senhor calvo, baixo e corcunda; ele era o dono do pequeno hotel onde Sam estava hospedado.
– Melhor impossível, cara. Me diga uma coisa, Francisco.
– Ah, pode me chamar de Chico.
– Onde posso conseguir um bom café da manhã por aqui?
– Bar do Pedro, na próxima esquina.
Sam agradeceu e depois de tomar o café mais forte de sua vida e um bom pão com mortadela, ele partiu para a delegacia. Tudo parecia perto em Castle Rock, se comparado com o Rio onde você tinha que pegar um carro, ônibus ou metrô para ir a qualquer lugar interessante. A cidade era tão incrível que possuía um shopping, um cinema e um banco na mesma rua. Um Walmart, um Carrefour e uma loja Americanas a duas quadras do apartamento onde Sam estava hospedado. A maioria das casas eram grandes, com direito a varandas e tudo.
Enquanto se encaminhava para a dp, Sam percebeu um número incontável de olhares sobre ele. Alguns menosprezando, outros analisando. Chegou a ver de soslaio, um velho cuspir no chão depois que ele passou.

A delegacia era bem organizada. Três ou quatro salas de arquivos, quatro celas provisórias e alguns computadores para uso dos policiais. A primeira coisa que Sam notou foi que ninguém estava de uniforme. E a segunda foram os olhares diretamente na direção dele.
– Bem vindo a 12° DP, me chamo Joe – cumprimentou o recepcionista.
– Olá, me chamo Sam.
– Ah, você deve ser o novato. Aguarde um momento.
Joe fez um ligação e poucos segundos depois, dois policiais – um japa e um robusto – apareceram.
– Olá, Sam – disse o japa – Me chamo Ming e este é meu parceiro Will.
Eles se cumprimentaram.
– Divisão de Crimes Gerais, certo? – questionou Will.
Sam assentiu.
– Pois é, está com a Homicídios hoje.
– Aconteceu alguma coisa em relação a minha ficha? – perguntou Sam.
– Não – Will abanou a mão – Na verdade, seu parceiro está atrasado.
– O Matt sempre atrasa – falou Ming.
– Não faz mal. O nosso chamado está dentro da divisão de crimes gerais. Ming vai levá-lo para pegar seus equipamentos.
Sam seguiu Ming rumo a uma sala embaixo da delegacia onde estavam os equipamentos. O japa – que Sam descobriu depois que era china – lhe entregou dois revolveres .38 e um coldre.
– Vamos – disse Ming.
– Espera aí…
O china fitou-o.
– Bom… está faltando o colete… as botinas… hã…
Ming estava bastante sério olhando para ele. A sobrancelha erguida parecendo julgá-lo. E então, começou a rir. Rir alto e estridente como se tivesse escutado a piada mais engraçada do mundo.
– Rapaz – ele suspirou, ainda rindo – Sabe, estou aqui há dez anos. Quer saber quantas vezes eu vi alguém enviando coletes para cá? Melhor, quer saber quantos caras daqui querem saber de coletes?
Sam não respondeu. Ming se aproximou e tocou seu ombro.
– Quer um conselho? Até que você deixe de ser o novato é bom não sair falando coisas desse tipo quando estivermos com outras pessoas.
Ming ainda deu mais um risadinha e depois subiu para saída. Sam olhou para o coldre.
– Sem colete… – resmungou – Quem disse que hoje não é um bom dia para morrer?
Ele correu para acompanhar seu parceiro.

CONTINUA…
POR NAÔR WILLIANS (ÔMEGA BR)